Já pensaram em como temos influência na vida uns dos outros? Mesmo naqueles com que nos cruzamos por instantes quase sem importância. Faz tanta diferença um pequeno grande gesto, uma atenção, uma palavra mais correcta, o empenho com que tratamos os outros e somos por eles tratados...
Senão vejam:
Não tenho o melhor chefe. Profissionalmente e praticamente presenteia-me com um banquete daqueles em que de um lado está o cargo - não pelo poder, mas pelo lugar, e do outro o Zé Povinho, o ignorante, o imbecil. Por outras palavras, e claro profissionalmente pois fora daquele cubículo não o conheço, não gosta de pessoas, subestima o mais humilde e venera o mais bem trajado e claro, a empatia vai subindo de escala consoante o estatuto que a outra pessoa possui. Já presenciei situações de vergonha, de pena, que o meu desejo era poder ter sido eu a informá-las e não ele. Era com cada mau exemplo diário, e sempre diferente, que já fartava. Já não via o dia em que ia de férias... Mandava pessoas de longe para trás dizendo que tinham de fazer isto e aquilo, ficando eu na dúvida se ele fazia isso por ser mais rápida a saída daquela pessoa ou se para atrasar a sua vinda aos nossos serviços. Enfim, uma confusão e complicação incrível! E lá vinham as pessoas uns dias depois e ainda assim voltavam para trás porque não estava correcto ou porque faltava isto ou aquilo. Enfim... nem lembra ao Diabo...
Um dia destes atendi uma utente do Pául do Mar. Isto para quem não está a par da logística, tendo em conta que trabalho no Funchal, o Pául do Mar fica mesmo muito muito longe. Então o que a dita senhora pretendia era saber como é que dava entrada a um recibo de pagamento de uma injunção. Como vi que o processo era da minha secção, e apesar de não ser eu a estar a tramitá-los, resolvi ajudar. Com algum volume de trabalho atrasado, pois tinha acabado de tirar férias, a tarefa de explicar algo ligeiramente complicado para uma mente idosa, que de certa forma estava calcinada ao conformismo e ao medo da independência e mudança - e isso notava-se logo à primeira vista - não se agoirava uma tarefa fácil para mim. Mas, com toda a certeza e paciência, afastei todo o meu trabalho para um lado da secretária e puxando uma folha da impressora, expliquei-lhe basicamente o que se pretendia e como teria de o fazer. Tudo isto para poupar a dita senhora de mais uma viagem longuíssima e extasiante para alguém daquela idade. Ao fim de uns segundos de explicação, a resposta rápida foi "Ai menina mas eu não sei escrever", com um medo terrível bem expresso na sua cara, então aí o caldo entornou-se, mas nada que não se resolva. Perguntei se não tinha ninguém da família ou amigos que o soubesse fazer, a senhora mais conformada disse que sim, por sorte conhecia alguém daqui das redondezas. Pronto, problema resolvido. Fiz um esboço e entreguei-lhe e lá foi ela à sua vida. Horas depois chega com o requerimento redigido a computador nos termos em que lhe tinham sido pedidos. (Nada mau... será que não sabia mesmo escrever ehehe?!) Encaminhei a senhora para a respectiva secção e lá deu ela entrada ao requerimento com o respectivo recibo. Agradeceu-me com um sorriso (desdentado eheh, que querido!) de orelha a orelha e nunca parava de me agradecer. Desejou-me as maiores felicidades do mundo e que Deus me acompanhasse a vida toda pois bem merecia. Enfim, uma ladainha completa mas verdadeira, não por mim, mas pela convicção com que proferia tais palavras. Sorri-lhe também e vim embora para a minha secretária.
Tempos depois, mudei de secção. Um trabalho completamente diferente: entrada de papéis, cumprir despachos, registar inquéritos, atendimento ao público, fazer pesquisas, registar objectos... Numa dessas tardes, atendi uma utente também do norte da ilha e com dúvidas acerca dumas injunções impostas num processo. Não fiz mais do que o meu dever e, sem antes lhe dar explicações, encaminhei a pessoa à respectiva secção onde se encontrava o processo. Acompanhei e por curiosidade pedi à colega se podia assistir à explicação, uma vez que queria aprender mais algo sobre esse assunto. Qual não foi o meu espanto, ao ver que a minha colega recebera o recibo do pagamento, sem burocracias, apenas fazendo informação de que a pessoa estivera ali presente e que entregara aquele recibo, naquela data e assinando o mesmo. Assim, simples! Lindo!
E eu de queixo caído e ao mesmo tempo feliz por saber que há gente que descomplica o sistema, sem medo, e que ajuda o próximo... Moral da história:
Este é um exemplo de como as nossas acções (ou a falta delas) interfere com a vida de todos. Este mundo é mesmo uma engrenagem gigante...
Agora pergunto: até que ponto não me sinto arrependida de ter "ajudado" a dita senhora naqueles termos...
Tal como me disseram uma vez, embora que com alguma discordância espontânea da minha parte, em resposta a um meu comentário: - Sentes isso porque é típico do ignorante - senti-me ligeiramente corada, então continuram - O ignorante é aquele que não sabe, mas dia para dia vai se apercebendo das suas acções e vai assimilando o que está para trás e lida melhor na prática diária tornando-a mais simples e directa. E é assim que vai crescendo...
E o meu comentário foi: Dia para dia vou achando estúpidas as perguntas que te fiz no dia anterior. Até chego a me sentir "envergonhada". Noto que logicamente faz sentido daquela forma e não de outra, pelo que a pergunta seria inútil, uma vez que não me restava qualquer hipótese.
Mas, sim, concordo plenamente! |